A Aventura do Livro

a aventura do livroUm livro existe sem leitor? Será que o mundo do texto existe quando não há ninguém para dele se apossar, para dele fazer uso, para inscrevê-lo na memória ou para transformá-lo em experiência? Estas e outras saborosas perguntas são respondidas no livro do historiador e professor especialista em história das práticas culturais e história do livro e da leitura Roger Chartier.

A Aventura do Livro do leitor ao navegador é o registro de entrevistas de Chartier com Jean Lebrun e que, além de reconstruir a história do livro, desde seu início na Antigüidade até a era da navegação na Internet, também aborda questões como a autoria e proteção de textos, o texto e sua relação com o autor e leitor, o leitor entre limitações e liberdade, a leitura (falta e excesso), bibliotecas, e o texto virtual e numérico. O livro também é visualmente belo, inteiramente colorido e ilustrado por fotos e obras de arte sobre livros (foto abaixo).

Assegura Chartier que a maior revolução da escrita foi em 1450 por Gutemberg, com a invenção dos tipos móveis e da prensa, pois até então os livros eram escritos à mão e somente depois desta transformação é que o livro propagou-se realmente. De acordo com o autor, a revolução do livro eletrônico se dá na estrutura do suporte material e nas maneiras de ler. Revela também que a negação da figura do autor conduziu ao reconhecimento de seus direitos, colocados hoje novamente em questão pela imaterialidade do texto eletrônico.

É interessante como o autor aborda as particularidades nas quais o texto é posto diante dos olhos do leitor, sua desmaterialização e as variáveis que condicionam a leitura, dentre as quais estão as convenções de cada cultura, os códigos de comunicação e o universo à que pertence cada leitor. Numa das mais belas passagens do livro, Chartier fala da relação do corpo e dos sentidos com o livro, bem como da relação do (espaço) público, sob a representação das bibliotecas e leituras em voz alta, e do privado através da leitura silenciosa, que “em lugares públicos torna-se uma leitura ambígua, realizada num espaço coletivo e ao mesmo tempo é privada, como se o leitor traçasse, em torno de sua relação com o livro, um círculo invisível que o isola”.

Depois de ler este livro, você entenderá que não é só o leitor quem procura por um livro, mas também é o livro que procura pelo leitor. Alguma vez você foi à livraria à procura de um determinado livro e levou por impulso outro completamente diferente daquele que havia procurado? “O leitor é um caçador que percorre terras alheias”, assim disse Michel de Certeau.
Le lecteur de Bréviaire, le soir, de Carl Spitzweg

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