A gota d'água da cultura catarinense

Foi literalmente a gota d’água para a cena cultural catarinense: a exposição “Coleção Gilberto Chateaubriand: um Século de Arte Brasileira” que reúne 170 obras do maior colecionador particular do país e traça um panorama da arte nacional durante o século XX tinha sua abertura marcada para a semana que passou, dia 22, mas foi adiada por prazo indeterminado devido às goteiras do Masc. Há muito tempo que as goteiras fazem parte do acervo do museu e, se “a causa das goteiras foi um rasgo na manta de impermeabilização ocorrido durante um conserto no ar-condicionado em 2006″ como declarou a diretora da FCC, então este “conserto” foi uma bela-obra-mal-feita, porque não existem um ou dois pontos de goteiras, e sim vários. Em visita ao Masc, presenciei cenas lamentáveis em dias de chuva: baldes espalhados pelas salas da administração do museu e funcionários realocando mesas de trabalho para que papéis não virassem sopa. É esta a situação lamentável em que vive o museu do nosso Estado. Já faz muito tempo que a administração do Masc reinvindica reformas, mas parece que o governo estadual não vê o museu de arte como o espaço da organização histórica da arte, mas sim como uma instalação temporária ou invisível.

As goteiras do Masc são somente um dos sintomas da nossa política cultural catarinense. Desde que o atual governo foi eleito, parece que toda a atenção cultural se volta somente para o Bolshoi em Joinville, que é o único cartão-de-visita-cultural-de-exibição do governador em suas viagens ao exterior. A cultura catarinense vive um retrocesso desde que o atual governo juntou a cultura, o esporte e o turismo numa só secretaria.

A crise cultural em Santa Catarina é tão grave que em junho de 2007 o Decreto 406 alterou a Lei nº 13.336 fez com que um produtor cultural catarinense, além de ter que captar o recurso para o seu próprio projeto, é obrigado também a captar recurso para o governo (o Funcultural), ou seja, o proponente é captador não só para o seu projeto aprovado, mas também para projetos do próprio governo que deveriam ser objetos de dotação orçamentária e jamais concorrer com os produtores. Este ato fere diretamente as condições de criação e produção artísticas. A Fundação Catarinense de Cultura (FCC), por exemplo, já é financiada com recursos do Funcultural, numa inversão da lógica dos fundos de cultura e mesmo das leis de incentivo.

Em entrevista ao Anexo do dia 19 de outubro de 2007, o secretário de turismo, cultura e esporte Gilmar Knaesel foi questionado sobre “se existem recursos para aplicar no setor, porque chove dentro do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis” e ele respondeu que “já há uma solução para esta obra. Nós temos que recuperar este vazio de quatro anos que nós pouco investimos na infra-estrutura porque nós não tínhamos recursos.” Mas parece que não faltam recursos, pois o próprio Funcultural destinou uma verba de 400 mil reais só para esta exposição “Coleção Chateaubriand”, cujas obras de nomes consagrados como Lasar Segall, Portinari, Oiticica e Lygia Clark não previam as goteiras. Hoje estas obras estão dentro das caixas e sem público para admirá-las e na melhor das hipóteses a exposição vai acontecer dentro de alguns dias e depois de um ou dois meses irá para outro museu, porém, as goteiras vão ficar e o Masc continuará sua batalha, esperando pelos investimentos sempre prometidos, mas que nunca “pingam”.

5 thoughts on “A gota d'água da cultura catarinense

  1. com essa chuvarada o dia todo, fique só lembrando do Masc…
    Vai um café, um pãozinho de queijo? tá quentinho…
    bjim

  2. Leila,

    Será que no dia em que arte e cultura forem tratadas com mais seriedade pelos nossos governantes, a Standard and Poor’s vai nos dar outro título de investment grade? Se depender das políticas atuais…

    Beijos!

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