"Os livros são muito ciumentos"

jose mindlin

Domingo passado faleceu um grande homem que dedicou sua vida aos livros: José Mindlin foi dono – ou depositário, como ele preferia se denominar – da mais importante biblioteca privada do país, que começou a formar aos 13 anos de idade. A esposa Guita (falecida em 2007) foi sua grande aliada na paixão pelos livros e criou a ABER, com o objetivo de congregar profissionais e entidades ligadas à conservação e restauração dos livros, documentos impressos, manuscritos e à encadernação artesanal. Parceiros e cúmplices, o casal formou um acervo com mais de 40 mil títulos, entre os quais muitos raros ou únicos, reunidos em sete décadas. Um dos livros mais antigos da biblioteca é uma edição dos Triunfos de Petrarca, de 1488, obra típica do Renascimento, foi impressa em trapos de pano que até hoje exibem excelente conservação — muito superior à do papel industrial do século XIX.

Além da grandeza de uma obra de sonho, a biblioteca de Guita e José Mindlin é tocada pela grandeza da generosidade do casal: a Coleção Brasiliana, um acervo de mais de 17 mil títulos que tratam somente de cultura brasileira, foi doada à Universidade de São Paulo em 2006 e hoje é um patrimônio de todos os brasileiros. A biblioteca possui os primeiros exemplares da Imprensa Régia no Brasil no início do século XIX; coleções (hoje raríssimas) de revistas científicas do século XIX e XX; peças curiosas como a primeira edição de Os Lusíadas; documentos do séc. XVI com as primeiras impressões que padres jesuítas tiveram do Brasil; os originais de Sagarana de João Guimarães Rosa; Vidas Secas de Graciliano Ramos etc. Enfim, uma biblioteca cuja notória brasiliana tornou-se conhecida no país e no estrangeiro como uma coleção única, obra de uma vida de dedicação à cultura brasileira e suas manifestações.

O ex-libris (selo pessoal colocado em livros) de José Mindlin, identificava quem foi o empresário, intelectual e acadêmico: “Je ne fait rien sans gayeté”, ou “não faço nada sem alegria”. A escolha da máxima de Montaigne foi retirada de seus Ensaios, da qual a biblioteca tem um raríssimo exemplar de 1588, que pertenceu ao crítico Saint-Beuve. Quando lhe perguntaram qual o seu livro preferido, Mindlin respondeu: “os livros são muito ciumentos e eu não posso falar em preferências, porque vou ter problemas com eles”. O empresário ensinou que a mais importante qualidade de um bibliófilo não é a fortuna ou a erudição, mas a paciência. O importante é o prazer da leitura, e resumiu seus sentimentos numa frase: “Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver.”

Viver entre livros é habitar um mundo estranho. Eles parecem pertencer ao reino dos objetos inanimados, mas essa é só uma falsa impressão. Os livros contam histórias e declamam poesia, amam e odeiam, educam, alegram e também traem. Embora possam ficar abandonados por anos a fio, são seres quimicamente vivos, matéria em movimento. Exposto à luz natural, o papel torna-se ácido e áspero, as letras perdem o viço e a cor. Manuseado sem o devido respeito, a estrutura arrebenta, a encadernação se fratura. Quando a capa é de couro, deve ser polida com cera, o remédio mais seguro contra a poluição das cidades e a gordura da cozinha. As páginas devem ser limpas, uma a uma, com um pincel bem macio, ao menos uma vez por ano.”

Afinal, a gente passa, mas os livros ficam.”   (José Mindlin, 1914-2010)

fotos de Cristiano Mascaro

Desde o dia 16 de junho de 2009, parte do acervo da Biblioteca Brasiliana da USP está on-line e acessível aos usuários da internet, disponibilizando 3 mil documentos, dos 40 mil volumes do acervo da biblioteca Guita e José Mindlin. A universidade afirma que ainda não há uma data para que todo o acervo doado seja escaneado e colocado na internet. Além disso, a Brasiliana USP está construindo um moderno edifício de 20.000 m2, no coração da Cidade Universitária em São Paulo.

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Colhido em: quero morar numa livraria; blog do Insituto Sergio Motta; Revista da Cultura; ABER.

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