Monthly Archives: March 2008

Romance em 3 atos

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É difícil comentar sobre um só filme do escritor e diretor Richard Linklater, que é um dos primeiros e mais talentosos diretores de filmes independentes da geração dos anos 90.

Em post anterior, comentei sobre o filme Before Sunset, mas antes é preciso falar de Before Sunrise, filmado em 1994. O filme começa quando Jesse, um jovem norte-americano (Ethan Hawke) encontra a estudante francesa Celine (Julie Delpy) num trem de Budapeste com destino a Viena. Imediatamente conectados por conversas que vão de assuntos metafísicos ao abstrato, os dois percebem uma forte conexão entre si. Jesse convence Celine a prorrogar seu retorno à França e ficar com ele em Viena até que seu avião parta para os EUA na manhã do dia seguinte. Durante as poucas horas de relacionamento os dois trocam experiências num encontro não só de sentimentos, mas pleno de diálogos profundos, enquanto exploram os belos caminhos da cidade.

Before Sunset (2003) é outro encontro de Jesse e Celine, 9 anos depois em Paris, amplificando a maturidade emotiva dos dois personagens. A história deste reencontro é contada durante pouco menos de uma hora e meia, que corresponde quase ao tempo real em que decorre a ação do filme. Nele, sabemos finalmente o que aconteceu depois do encontro em Viena e de que forma este episódio marcou suas vidas. A originalidade do roteiro (escrito também por Hawke e Delpy) com diálogos bem construídos tem bom argumento e interpretações bastante naturais somado à magnífica fotografia de Paris. O filme tem trilha sonora composta e cantada pela própria Julie Delpy. O espectador verá a beleza do reencontro entre duas pessoas que se conheceram a 9 anos com muita conversa para por em dia.

Enfim, um romance sensível, passional e inteligente em 2 atos. Filmes que mostram a fina forma de sedução pela conversa. (Sim, isto é possível!)

Mas a história do casal Jesse e Celine não pára por aí, em outro filme de Linklater o casal reaparece. É em Waking Life (2001), que só pela trilha sonora composta pela Tosca Orquestra já é um filme que vale muito à pena. E nem só por isso! O filme é questionador sobre os mistérios da vida, na tentativa de achar e discernir a diferença absoluta entre o despertar da vida e o sonhar. Uma fuga da realidade ou a realidade em si?

Eu disse que era difícil comentar sobre um só filme deste diretor… e ainda tem mais: Dazed and Confused (1993), A Scanner Darkly (2006), Fast Food Nation (2006) e outros. Recomendo todos!

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A livraria mais charmosa do mundo

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Tudo começou quando Sylvia Beach (1887-1962), uma norte-america radicada em Paris, decidiu montar em 1919, uma livraria com a intenção de difundir os novos autores e a literatura contemporânea do seu país de origem. A nova livraria situada na Rue Dupuytren nº 8 atraiu muitos curiosos e amantes das letras. Assim surgiu a Shakespeare and Company, que logo depois mudaria para a Rue de l’Odéon nº 12, tornando-se o centro da cultura literária de língua inglesa na capital da França. Grandes nomes freqüentaram ou se instalaram na livraria de Sylvia e dentre seus fregueses estavam Gertrude Stein, Ezra Pound, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway (ao lado de Sylvia na foto acima, à esquerda), James Joyce (com Sylvia na foto acima, à direita) e Man Ray.

sco.jpgO livro Shakespeare and Company, uma livraria na Paris do entre-guerras, publicado pela ótima editora Casa da Palavra, é um relato de Sylvia sobre as peculiaridades de seu empreendimento. Sylvia teve coragem suficiente para publicar Ulisses de Joyce, na época em todas as editoras se recusavam a editá-lo. Todos os passos da construção de Ulisses são narrados, desde a procura por um tipógrafo interessado no audacioso projeto, as revisões de Joyce sobre as inúmeras provas do livro até seu lançamento e sua aceitação pelo público. Ulisses foi o único livro publicado pela Shakespeare and Company de Sylvia Beach.

Já consolidada, a livraria fechou em plena II Guerra Mundial, pois a nacionalidade norte-americana de Sylvia e suas amizades judaicas chamaram a atenção dos nazistas. Após recusar-se a vender um exemplar de Finnegans Wake a um militar alemão, Sylvia recebeu o aviso de que os nazistas iriam confiscar tudo. Em questão de horas tudo foi escondido no terceiro andar do prédio e, em 1941, quando os alemães voltaram lá, não encontraram mais a loja.

Em 1951 outro norte-americano radicado em Paris (George Whitman, 1913 – ) abriu uma livraria com o mesmo nome na Rue de la Bücherie nº 37 (fotos abaixo) e hoje funciona nos moldes da antiga loja de Beach. Há décadas a livraria continua sendo o ponto de encontro para amantes da literatura e de aventureiros amantes da leitura em busca de um lugar para dormir. Lá, livros e camas se juntam. Whitman pretendeu transformar sua loja de livros numa “utopia socialista disfarçada de livraria”. Na década de 50, integrantes da geração beat, como William Burroughs e Allen Ginsberg buscaram guarida na livraria. No livro Um livro por dia – minha temporada parisiense na Shakespeare and Company, o ex-jornalista policial canadense e hoje escritor Jeremy Mercer narra os nove meses em que passou em companhia de George Whitman e dos viajantes que procuraram a livraria como pouso em troca de trabalho. O livro foi publicado pela mesma editora e além das aventuras dentro da excêntrica livraria, Jeremy narra sua vivência em Paris com pouco dinheiro no bolso, de forma bem alternativa e nem por isso de forma miserável.

Para conhecer um pouco mais desta charmosa livraria, acesse este site e faça um giro de 360º pelos arredores da livraria ou por entre suas estantes recheadas por milhares de livros. Há também comunidades na net, como esta no Flickr, com várias fotos em diversos ângulos, inclusive da gatinha preta Kitty, que entre um cochilo e outro, tem a função de vigiar os livros dos temíveis roedores.

Outra dica é assistir ao filme Before Sunset (2004), com Julie Delphy e Ethan Hawke. O filme começa dentro da livraria, mas este é assunto para o próximo post. Aguardem!

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Save Polaroid

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As máquinas fotográficas analógicas estão em extinção e os filmes fotográficos também já estão ameaçados. Para quem ainda utiliza filmes negativos ou positivos percebe que os custos andam cada vez mais altos e que as caixinhas, dia após dia, desaparecem das estantes dos laboratórios. Se era difícil adquirir as máquinas, abastecê-las com filmes ficou ainda pior.

Em post anterior escrevi sobre o projeto “Polaroid 669″ do designer Piotr Zastrozny. Adoro fotos neste formato e não tenho uma câmera Polaroid, mas mantenho a esperança de adquirí-la num futuro não muito distante. Será que ainda me resta tempo?

polaroid02.jpgNo dia 8 de fevereiro deste ano a Polaroid Corporation anunciou que irá descontinuar a produção de filmes instantâneos. Depois do anúncio, alguns designers, artistas e fotógrafos criaram o site Save Polaroid, um local que documenta e serve como base para o esforço em convencer outras companhias a produzir a mesma tecnologia que a Polaroid tão negligentemente abandonou. No site há artigos, petições, links e histórias afetivas que ajudam a planejar um futuro melhor para os filmes instantâneos criados por Edwin H. Land.

Ao que parece, a FujiFilm ainda continuará fazendo filmes instantâneos (o Instax), mas por enquanto disponível somente no Japão. É, resta pouco tempo…

A Noiva Síria

noivasiria01.jpgCasamento é pra ser uma ocasião especial e festiva, principalmente para a noiva. Mas o dia do casamento de Mona (Clara Khoury) é o dia mais infeliz de sua vida. A Noiva Síria (2004) é um filme franco-teuto-israelense rodado na fronteira entre Israel e Síria, nas colinas de Golã, região ocupada por Israel.

O filme ganhador de vários prêmios é dirigido por Eran Riklis e retrata a preparação de um casamento típico entre uma jovem drusa e moradora do lado israelense com um astro de tv (também druso) e morador do lado sírio. Mona conhece seu noivo apenas pela tv e para casar ela tem que passar pela fronteira entre Israel e a Síria, e sendo assim ela nunca mais veria sua família, por ser impossível retornar. Para passar de um lado para o outro, a burocracia de cada lado transforma o casamento em uma festa do absurdo, onde somente sua forte irmã Amal (Hiam Abbass) consegue apaziguar os ânimos e diferenças entre os membros da família.

É uma história pessimista num dia festivo, inserido num cenário pitoresco de uma região ocupada pela hostilidade, indiferença e burocracia. Um casamento diferente, emocionante e lindo.

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Anônimos bem vestidos

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O blog The Sartorialist muitos já conhecem e pertence a Scott Schuman, um apaixonado por moda e fotografia que misturou estes dois segmentos e se transformou num profissional da moda que fotografa anônimos bem vestidos nas ruas das capitais mais fashionistas do mundo. É em Nova York, Paris, Milão e Tóquio que Scott fotografa cenas cotidianas de mulheres e homens indo trabalhar, ou andando de bicicleta, ou passeando com seus cachorros, todos sempre muito estilosos. Além do blog de sucesso, Scott também escreve para importantes revistas e sites de moda. Segundo ele, nas ruas a moda é mais realista, e é possível ter estilo com peças acessíveis, “moda não é uma questão de dinheiro, e sim de elegância”. Chique e simples, né não?

Muitos designers usam The Sartorialist em seus processos de criação. E pegando uma carona com Scott, o blog wearpalletes vai além das fotos dos anônimos. O blog, criado e mantido por um estudante de design gráfico, cria paletas de cores de acordo não só com as roupas do pedestre, mas também com a cor dos cabelos, dos acessórios, da pele, ou da bicicleta, ou do cachorro! É realmente inspirador, porque as paletas de cores são incríveis.

Outro site também muito recomendado para designers é o colorlovers que disponibiliza várias paletas de cores e estampas, criadas pelos visitantes do site, além de fóruns de discussão, entrevistas com artistas e designers e muita, muita inspiração.
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Uma mulher chamada Edith Gaertner

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Esta semana estive em Blumenau, mas sem tempo para passeios e cervejas, uma pena! Mesmo assim, achei tudo muito lindo. Blumenau é uma cidade encantadora e cultural, cheia de saborosas confeitarias a cada esquina e de pessoas muito receptivas. Quando eu estava de partida, soube que na cidade havia um Cemitério dos Gatos dentro de um Horto Florestal e que pertenceu a uma atriz que amava gatos e se chamava Edith Gaertner.

Edith era uma mulher à frente de seu tempo. Nascida em 22 de março de 1882, era sobrinha-neta do químico e filósofo Hermann Bruno Otto Blumenau (1819-99), fundador da cidade de Blumenau. Com temperamento independente, aos 20 anos viajou sozinha para Buenos Aires. Seu grande sonho era o teatro e na Argentina conheceu sua musa inspiradora, a atriz Elenora Duse. Edith foi para a Alemanha, onde cursou a Academia de Arte Dramática em Berlim. Percorreu as principais cidades da Europa trabalhando em peças nos mais renomados palcos de teatro, com peças de Goethe, Schiller, Molière e Shakespeare. Com a doença dos irmãos solteiros, Edith teve que retornar a Blumenau em 1924 e abandonou a carreira artística. Ela voltou à Alemanha somente em 1928 e permaneceu lá por mais de um ano. Nesta época, a Alemanha vivia os efeitos do pós Primeira Guerra Mundial. Quando retornou ao Brasil, Edith modificou radicalmente seus hábitos e estilo de vida. Do constante e assíduo contato com o público, preferiu refugiar-se no silêncio da sua propriedade, entre livros, animais e o verde do parque nos fundos da casa, e foi assim até o final de sua vida.

A ameaça de perder parte de seu patrimônio (um dos mais expressivos referenciais da colonização alemã) para dar lugar a uma nova rua, fizeram-na tomar uma atitude: doou para o município uma área de 1.775 m² . A doação foi feita sob a condição de se manter a área tal como a deixara, garantindo que ninguém a perturbasse em seu retiro enquanto vivesse, e que após sua morte este patrimônio continuaria a ser mantido. Edith faleceu em 15 de setembro de 1967. A residência, o horto e outras benfeitorias foram incorporadas à Fundação Cultural de Blumenau, transformadas no Museu da Família Colonial e Parque Botânico Edith Gaertner.

Edith deixou registro fotográfico das flores que alegravam seu belo jardim e dos gatos, seus fiéis companheiros. A atriz tinha grande afeto pelos felinos, que ao morrerem eram enterrados com funeral e cortejo fúnebre. No Cemitério dos Gatos (foto abaixo, à direita) estão enterrados: Pepito, Mirko, Bum, Peterle, Musch, Schnurr, Sittah, Putze e Mirl.

Além do Parque Botânico que leva seu nome, há também a Sala de Teatro Edith Gaertner, dentro da Fundação Cultural de Blumenau, e parte de sua história é contada no longa-metragem “Outra Memória”, dirigido por Chico Faganello.

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Design Public – fresh new design

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Design Public é uma empresa norte-americana que vende peças de vários designers talentosos, com o comprometimento de educar, inspirar e celebrar o novíssimo design.

As peças contidas no site são diferentes e sofisticadas. Produtos que têm função e que pretendem ter relevância no estilo de vida da pessoa que adquire, além do valor e da estética (não somente da aparência), e de como a peça faz você se sentir.

fatcat2.jpgDentre tudo o que há no site, (e olha que tem muita coisa boa: charmosíssimas luminárias, papéis de parede, almofadas, acessórios, etc) claro que o que mais me encantou e chamou a minha atenção foi a linha dedicada aos Pets. Arranhadores, poltronas, camas, tudo muito modernoso! A cama da foto acima, na verdade é um arranhador fabricado em papelão reciclado e o nome da peça é Marmalade pet care Sweet Lounge Cat Bed, pode mais chique que isso? Amei, é claro! E Hepper Pod Pet Bed é o nome desta cama da foto abaixo, que mais parece uma churrasqueira futurística do filme 2001: uma Odisséia no Espaço. O gatinho parece estar bem feliz ali dentro!

O pessoal da Design Public está sempre procurando por novidades bonitas, usáveis e de qualidade, porque para eles, todo mundo é único e todo mundo é criativo.

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O sabor e a paixão

mostlymartha.jpgImpossível esquecer os deliciosos clássicos que excitam o paladar e aguçam as papilas gustativas! A Festa de Babette, Como Água para Chocolate, O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante, e O Tempero da Vida são alguns exemplos de filmes que quando terminam dá aquele louco desejo de saborear um belo prato ou sair cozinhando maravilhosamente bem. Outro exemplo com muitos ingredientes especiais e pouco conhecido, porém muito saboroso é Simplesmente Martha (2001). O filme é alemão e logo na abertura tem uma bela sequência de imagens mostrando a preparação de um prato refinado.

O filme conta a história de Martha Klein (interpretada por Martina Gedeck, estrela do filme A vida dos Outros, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2007), uma cozinheira perfeccionista e incontestável que trabalha num refinado restaurante em Hamburgo. Sua vida, que não tem lugar para relacionamentos, é firmemente centrada ao redor da cozinha. Mesmo quando é obrigada a fazer terapia, Martha insiste em conversar sobre suas criações culinárias ou sobre a arte dos condimentos.

Sua organizada rotina muda quando sua irmã morre num acidente de carro, deixando uma filha de 8 anos. Martha acolhe a sobrinha e enquanto tenta descobrir o paradeiro do pai da menina, ela acaba perdendo o foco no trabalho e um cozinheiro italiano (Mario, interpretado por Sergio Castellitto, que atuou também em Paris, Te amo, de 2006) é contratado para ajudá-la a comandar a cozinha do restaurante. Martha sente-se ameaçada por este charmoso e extrovertido intruso, onde as pressões de ambos criam uma situação que mudará suas atitudes e escolhas, surgindo assim um saboroso e profundo romance.

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