Monthly Archives: November 2007

O gato de 95 milhões de dólares

Dora Maar with Cat

A vida e obra de Pablo Picasso são bem conhecidas do público em geral, e eu, uma amante de gatos, não havia percebido que dentre as inúmeras obras do pintor espanhol, havia um gato entre elas. Nada como um blog para compartilhar dicas importantíssimas como esta que a leitora, amiga e antropóloga Flavia Motta lançou: a obra “Dora Maar com Gato”, pintada por Picasso em 1941. Além de ser uma das mais famosas obras do artista, esta pintura é, desde 2006, a segunda obra mais cara do pintor, vendida em leilão pelo incrível valor de 95,2 milhões de dólares. O arremate final deu-se a um anônimo russo presente no leilão, mas acredita-se que o verdadeiro dono da obra seja um milionário minerador residente na Geórgia, uma pequena república localizada na fronteira entre a Europa e Ásia, e limitada a oeste com o Mar Negro.

“Dora Maar com Gato” (128,3 cm x 95,3 cm), é um exemplar cubista e retrata a mais famosa amante e grande musa inspiradora de Picasso. Dora foi tão importante para Picasso que, como consta, ajudou o artista a pintar “Guernica”, obra-prima que denuncia o massacre do povo basco pelas tropas franquistas durante a Guerra Civil Espanhola. Na pintura, Dora Maar, com grandes unhas azuis que parecem garras de gato, está sentada numa cadeira com um gatinho preto em seu ombro. Detalhe importante: Dora não gostava de gatos, e a inclusão do felino desconhecido na obra – dizem alguns especialistas – é um símbolo do controle que Picasso exercia sobre esta mulher.

Dora e PicassoFotógrafa de origem iugoslava, Dora, que também foi amante do escritor Georges Bataille, conheceu Picasso (na época com 55 anos) aos 29 anos de idade. Diferente da maioria das outras mulheres, que sempre viveram à sombra do pintor, Dora era uma fotógrafa de talento e prezava por sua privacidade. De acordo com o pintor pernambucano Cícero Dias, que foi amigo de Picasso, Dora era uma mulher nervosa e deprimida, e foi internada várias vezes, porque não agüentava saber do relacionamento de Picasso com outras mulheres.

Picasso e Dora viveram em romance de 1936 a 1943, até quando o pintor a trocou por Françoise Gilot, 39 anos mais nova do que ele. Depois do fim do romance, ela se recolheu à solidão, em Paris. Em 1997, aos 89 anos, Dora morreu sozinha e incógnita, num asilo da capital francesa.

Peter Callesen

Snowballs (detail), 2005

O artista dinamarquês Peter Callesen tem uma obra incomum. Formado pela célebre Goldsmiths College of London, Callesen cria um trabalho minucioso, lúdico e sublime.

Suas obras com recortes em papel branco são tão detalhistas e frágeis que é até possível duvidar de toda a sua ininterrupta perfeição. Trabalha os espaços de modo poético: “Acho a materialização de um pedaço plano de papel numa forma 3D como um processo quase mágico” – revela o artista.

As performances de Callesen também adentram no universo lúdico e uma figura bastante presente em suas obras é um sinistro cisne morimbundo, e que de acordo com o artista, é um híbrido entre patinho feio e a figura humana, que freqüentemente se esforça para ser alguém ou tenta alcançar o impossível, sempre confrontado com realidade e fracasso.

Peter Callesen cria uma atmosfera frágil, intensa e desconfortável, lidando com sonhos e o impossível. Este artista é fantástico!

Concert for Birds

C.R.A.Z.Y. (2005)

crazyO cinema canadense está entre os melhores do mundo, e um ótimo exemplo desta afirmação é o filme C.R.A.Z.Y., dirigido por Jean-Marc Vallée.

Zac (Marc-André Grondin), é o terceiro dos quatro filhos do rigoroso Gervais e da doce Laurianne. Entre a convivência amorosa e estreita com a mãe e a relação imcompreendida com o pai, Zac cresce entre os anos rebeldes de Quebéc. Totalmente desconfortável com sua sexualidade, Zac tenta adequar-se ao papel de filho normal para agradar a religiosidade da mãe e a intolerância do pai. A narrativa de sua história com o aprendizado entre os irmãos se passa entre anos 60 a 80, embalados por uma trilha sonora de altíssima qualidade, com músicas de Pink Floyd, Rolling Stones, Jefferson Airplane, David Bowie, entre outros.

Em passagens completamente inesperadas, o talentoso diretor Jean-Marc Vallée aborda as contradições humanas numa espécie de fábula mística e moderna, explorando beleza, poesia e loucura numa Canadá pouco conhecida pelo público em geral.

Amores Expressos: o amor contemporâneo em diferentes instantâneos

amoresexpressos

Muitos já conhecem este projeto e alguns outros ainda não:
Amores Expressos é uma idéia editorial inédita que convocou 16 (privilegiados) escritores brasileiros para uma mesma missão: passar um mês numa metrópole do mundo e escrever um romance. Com uma única exigência: os romances devem contar uma história de amor ambientada nas cidades respectivamente visitadas. Paris, Cairo, Tóquio, Havana, São Paulo, Cidade do México, Bombaim, Praga, Lisboa, Dublin, São Petersburgo, Nova Iorque, Istambul, Berlim, Buenos Aires e Shangai são as cidades que receberam os 16 escritores escolhidos pelo projeto. Posteriormente, as futuras dezesseis histórias serão transformadas em livros e editados pela Companhia das Letras. Apesar da polêmica inicial de quando o projeto foi lançado, diz-se que esta iniciativa não tem nenhum custo financiado pela Lei Rouanet.

Enquanto os livros não saem, vale muito à pena ler as impressões, descobertas, frustrações e encantos narrados em crônicas dos escritores escolhidos, nas diferentes cidades que serviram de cenário e inspiração para suas narrativas. Além de um diário de bordo, os blogs funcionam como um exercício de pesquisa para cada um dos autores, mesmo aqueles que declaradamente não gostam desta ferramenta, como no caso de Lourenço Mutarelli, que foi para Nova Iorque e desbravou Manhattam e Brooklyn no melhor estilo humor, sarcasmo e críticas à terra do tio Sam. Há também a fabulosa e cultural Paris de Adriana Lisboa, a histórica Dublin de Daniel Pellizzari, o caos da Xangai de Antonio Prata, entre outros. Os escritores realmente misturaram-se nas cidades e não foram apenas turistas com intenção de captar tudo e todos, num curto espaço de tempo. Instalaram-se em residências ou apartamentos, conviveram e se aproximaram do cotidiano dos moradores locais, descobriram lugares inusitados e muitas vezes explicitaram suas aflições e seus sentimentos.

Os romances virão, mas com certeza estes blogs já são ótimos livros virtuais de literatura de viagem.

Quilt

quilts

O vento frio em plena primavera no sul do Brasil me lembra um tipo de cobertor macio, quentinho e charmoso: o Quilt.

Quilts são cobertas produzidas geralmente à mão e se caracterizam por três camadas: o tecido superior ou topo da coberta (feita pela união de vários pedaços de tecidos, formando desenhos, texturas ou até histórias), um material isolante como’ recheio’, e um material de apoio (forro). A palavra “quilt” provém do latim ‘culcita’, uma espécie de colchão ou almofadão preenchido com algo macio e quente (geralmente penas ou lã) e usado para cobrir. Quilting (que significa acolchoamento) e Patchwork são parceiros no mundo do craft, e têm estado juntos por milhares de anos.

Evidências da existência do quilting retrocedem a vários séculos antes dos romanos. Um tapete funerário achado na Rússia, no chão do túmulo de um chefe é datado entre 100 a.C. a 200 d.C. Um dos mais importantes usos do quilting em sociedades antigas foi na confecção de armaduras pessoais e usados especialmente pelos exército da China, Japão, Índia e também da Europa, até a Idade Média, pois forneciam uma defesa efetiva contra golpes de espadas, lanças e flechas. Foram encontrados também alguns artigos sobreviventes ocasionais na Sicília, que datam do final do século XIV. Na América do Norte, especialmente nos Estados Unidos, o quilt fazia parte da cena social, particularmente nas áreas rurais, onde eram praticados desde os tempos da colonização. Serviam como ferramenta de sobrevivência e eram a única forma de expressão criativa de mulheres que muitas vezes viviam em lugares isolados.

Quilt pieceHoje, os Quilts são populares mais por suas qualidades estéticas e artísticas do que por sua funcionalidade. As razões para se fazer um Quilt são diversas: eles podem ser simplesmente algo para manter as pessoas quentes; ser cópias dos velhos quilts, celebrando o passado; ou ainda, brincar com padrões e texturas de tecidos por puro prazer, pelo exercício e pela beleza do resultado que o torna único.

logoA designer estadunidense Denyse Schmidt reinterpreta a tradição dos Quilts criando cobertas modernas e com encantadoras combinações de cores. As cobertas são feitas à mão, uma a uma, e os projetos são feitos sem padrões, num método de improvisação — um processo mais como pintura ou colagem que tecido de retalhos tradicional. O resultado é que nenhuma das cobertas são semelhantes. Os tecidos são 100% de algodão e cuidadosamente pré-lavados, e cada Quilt é assinado e datado por Denyse.

Vale à pena se inspirar!

quilts

Fonte: Wikipedia

Moleskine Project

picasso’s moleskineOriginalmente produzido por pequenos encadernadores franceses,moleskine Moleskine é uma lendária caderneta de bolso usada e eternizada por alguns dos melhores artistas, como Picasso e Van Gogh (que a usava para seus esboços em aquarela), e muitos escritores, dentre eles Hemingway. Em 1986, o último fabricante dos originais Moleskines parou sua fabricação para sempre. Mas, em 1998, uma companhia italiana trouxe o Moleskine de volta e com sua extraordinária tradição, a pequena caderneta de capa-dura-preta mais uma vez começou a viajar o mundo em diferentes e modernas versões, como esta da foto à direita.

moleskine projectHoje, uma nova geração de escritores e artistas utilizam as graciosas cadernetas e tornam-se viciados nela. Com isso, muitos projetos interessantes surgem, usando o Moleskine como suporte, como no caso do Moleskine Project, um site aberto à contribuições de todos os artistas que utilizam seus Moleskines para registrar suas idéias inestimáveis. Todos os dias surgem novos desenhos e pinturas e, se não fossem por ótimas iniciativas como esta, que incentivam novos profissionaisa exporem seus trabalhos online, não teríamos a oportunidade de conhecer trabalhos maravilhosos como o do alemão Weizenkeim, ilustrado na foto abaixo.

Aproveite também para passear no site Boonika Art Project, outra comunidade para promover trabalhos e idéias artísticas, criada pelos idealizadores do Moleskine Project, onde há uma outra infinidade de ótimas obras.

Weizenkeim

VODKA LEMON (2003)

Vodka LemonNum cenário de fim de mundo no inverno, Vodka Lemon, do diretor Hiner Saleem, é ambientado na Armênia pós-soviética, onde “existe liberdade, mas não existe mais nada”, segundo um de seus tantos personagens aturdidos. Num povoado economicamente empobrecido, onde trabalhos são tão preciosos quanto a luz do sol, a vida é tediosa e homens desempregados reúnem-se para beber vodca com limão para discutirem as possibilidades do futuro.

A história é sobre um viúvo dedicado a visitar a sepultura de sua esposa no cemitério. Regularmente encontra uma viúva que também visita o cemitério afim de lembrar-se do falecido marido. Os dois estão sem dinheiro – ela trabalha numa barraca vendendo vodca com limão, e ele é forçado a vender os objetos que lhe restam. Tudo parece sem esperança e desolador, até que uma união inesperada revitaliza-os.

Vodka Lemon é um filme que encanta alguns e entedia muitos outros. Apresenta momentos de puro brilho contemplativo, e expõe a cultura e tradição armênia. É tão poético e de fotografia tão maravilhosa, que a beleza é a maneira em que o trágico sutilmente é afastado por momentos de absurdo. Uma história sobre amor e perdas, numa parte isolada do mundo que foi esquecida pela economia global, e sobre pessoas que se relacionam e encaram as adversidades naturais mais amargas.

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O gato por dentro – William Burroughs

O Gato por dentroA editora L&PM lançou, em 2006, o pocket book “O gato por dentro”, no qual o célebre escritor beat norte-americano William Burroughs (1914-1997), amante inveterado dos felinos, relembra em 102 páginas, os gatos que passaram pela sua vida, tudo o que fizeram por ele e por sua saúde mental. O escritor parece concluir que, fora as particularidades físicas, pouca diferença há entre humanos e felinos.

William Burroughs iniciou sua carreira literária na década de 40, ao lado de Jack Kerouac e Allen Ginsberg, entre outros escritores beats. Sua obra mais conhecida é “Naked Lunch” (Almoço Nu), publicado em 2005 no Brasil, pela editora Ediouro. Conhecidíssimo pelas experimentações com diversos narcóticos, nos anos 70 Burroughs passou a lecionar e conviver com intelectuais e artistas como Andy Warhol e Susan Sontag. Na década de 80, sua obra e personalidade tornaram-se referências mundiais.

Escrito na maturidade do autor, entre 1984 e 1986, “O gato por dentro” traz inventivas e espirituosas reminiscências e reflexões. É uma viagem sentimental e muito particular pelo ancestral convívio entre gatos e humanos. Abaixo, alguns trechos do livro:

“Quando penso no início de minha adolescência, eu me recordo da sensação recorrente de aninhar e acariciar uma criatura contra meu peito. É bem pequena, mais ou menos do tamanho de um gato. Não é um bebê humano, nem um animal. Não exatamente. É parte humana e parte outra coisa. Lembro-me de uma ocasião em que isso aconteceu lá na casa da Prince Road. Eu devia ter doze ou treze anos. Eu me pergunto o que era… um esquilo?… não exatamente. Não consigo ver direito. Não sei de que ela precisa. Sei apenas que confia plenamente em mim. Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos.”

“Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agora reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar. Sem dúvida compartilha coisas com o gato, e também com outros animais: raposas voadoras, lêmures ai-ais, lêmures-voadores com olhos amarelos enormes que vivem em árvores e são indefesos no chão, lêmures de cauda anelada e os pequeninos lêmures microcebos, martas, guaxinins, minks, lontras, gambás e raposas da areia.”

“Há quinze anos sonhei que tinha pego um gato branco com linha e anzol. Por algum motivo, estava prestes a rejeitar a criatura e jogá-la de volta, mas ela começou a se esfregar contra mim e a miar de um jeito comovente. Desde que adotei Ruski, os sonhos com gatos são nítidos e freqüentes. Costumo sonhar que Ruski pulou em minha cama. Claro que isso às vezes acontece, e Fletch também é um visitante contumaz, que pula na cama, se aninha contra mim e ronrona tão alto que não consigo dormir.”