Category Archives: Filmes

Manda-Chuva

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Manda-Chuva ou ‘Top Cat‘ no original, é um desenho que animava as tardes da meninada e era transmitida (se não me engano) pela rede Bandeirantes. Nos EUA a série decorreu de 1961 a 1962 para uma temporada de 30 episódios na rede ABC e aqui no Brasil ela foi transmitida na década de 80.

Manda-Chuva, um gato amarelo com chapéu e colete violeta é o protagonista e líder da gangue, o inventor das confusões e trapalhadas desta turma. Ele é descontraído, persuasivo e um líder que também é amigo, como todos os gatos. Mas a liderança de Manda-Chuva é muitas vezes contestada pelo resto da turma, principalmente quando ele faz alguma coisa particularmente vergonhosa. É um personagem de ‘pele’ bronzeada, ganancioso, um pouco preguiçoso e muito inteligente. Cheio de truques, muitas vezes não reconhece o esforço que o grupo faz por ele, mas sempre leva o crédito pelas façanhas. No Brasil, Manda-Chuva foi dublado pelo ator Lima Duarte.

Uma frequente linha de enredo rodava em torno do policial local, o Guarda Belo, e suas tentativas ineficazes para expulsar a gangue do beco. Mas a única razão para ele se livrar dos felinos inoportunos, era que a gangue estava constantemente tentando ganhar dinheiro fácil, normalmente através de um golpe ilegal.

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Guarda Belo (Officer Dibble): É um policial à americana, amigo da vizinhança e que tenta, sem muito sucesso, fazer com que Manda-Chuva pare com suas traquinagens. Embora normalmente ele não aprove a presença da gangue no beco, há momentos em que ele respeita o grupo, mas quer Manda-Chuva fora do beco e bem longe do seu telefone.

O restante da gangue era composta por:
Batatinha (Benny the Ball): O mais amável dos gatos! Baixinho, fofinho, um gato de cor índigo com uma camisa branca de um único botão. Batatinha podia parecer ingênuo, mas conseguia fazer as perguntas mais lógicas durante os empreendimentos mais irregulares da gangue. Era lento, mas não estúpido, e a relação entre ele e Manda-Chuva era baseada numa amizade bem dedicada.

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Bacana (Fancy Fancy): Um gato laranja escuro com um lenço branco e com ares de galã, que fazia o trabalho de capanga do Manda-Chuva. Descontraído, galante que regularmente conversava com as senhoras antes de ouvir o “chamado da tampa do lixo”.

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Espeto (Spook): Gato com estilo próprio, que no Brasil ganhou uma dublagem com sotaque nordestino. Nos EUA sua linguagem foi baseada em um beatnik. Espeto raramente fala nos episódios, mas quando o faz, uma torrente de “como’s” são usados. Ele é semelhante ao Bacana em comportamento e aparência, um doce de gato falante e bom de sinuca.

Gênio (Brain): O nome é apenas uma ironia. Cérebro parece ser um capanga comum a Manda-Chuva. Um gato laranja com uma camisa roxa, notório por ser incapaz de guardar um segredo e por sua gagueira. Ele também parece ser responsável pelo dinheiro do grupo que eles raramente possuem!

Chu-Chu (Choo Choo): Braço direito de Manda-Chuva. Chu-Chu é normalmente o segundo em comando. Entusiasta e dedicado a Manda-Chuva, mesmo quando ele é ignorante sobre o que está fazendo. Um gato rosa com uma camisa branca de gola alta, manga longa e o mais alto dos gatos do grupo do beco, muitas vezes representado com os olhos de um gato siamês. Ele habita um Corpo de Bombeiros, aonde foi adotado como um gato doméstico.

Assista um pouco deste desenho, um episódio onde Batatinha ganha uma passagem para o Havaí e a gangue tumultua um navio:

As outras duas partes deste episódio também estão no youtube. É nostalgia pura!

Mais sobre o Manda-Chuva neste link.

Mad Men

mad menSou viciada em séries americanas, britânicas, dinamarquesas ou whatever… quando gosto, ninguém me tira do sofá! E hoje este post é dedicado à Mad Men, uma das melhores séries que já assisti.

Há dois anos quando li sobre ela no blog Uppercase Journal, fiquei curiosa pela fotografia que ilustrava o post, onde havia uma enorme sala estilo anos 60, e minha curiosidade aguçou quando percebi que elas estavam lá… as máquinas de escrever. Mas foi somente no verão passado que tomei uma overdose de Mad Men e vi três temporadas inteiras em duas semanas. Hoje a série está em sua 4ª temporada e vem conquistando todos os prêmios na categoria “melhor série drama”, e não é à toa: Mad Men é escrita e produzida por Matthew Weiner, também escritor e produtor executivo do premiadíssimo drama Os Sopranos.

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Para quem gosta da arte que existe dentro da publicidade, esta série tem um sabor especial. Ambientada na década de sessenta, o drama gira em torno dos conflitos de Don Draper (Jon Hamm), considerado o executivo mais criativo dos negócios publicitários de Nova York e de seus colegas da agência Sterling Cooper Draper and Pryce. A maior parte das personagens está dentro da agência de publicidade, num ambiente extremamente competitivo onde acompanhamos os conflitos entre clientes e executivos, que jogam e manipulam com seus egocentrismos. O conflito se dá também entre egos do departamento de arte e atendimento e neste contexto observamos o processo da criação de campanhas sem o uso do computador: slogans criados enquanto conversam, desenhos rascunhados e layouts finalizados manualmente, ou seja, a falta de tecnologia é “o” charme da série, sem contar o tilintar dos telefones com fio e os toc-tocs das máquinas de escrever como música de fundo.

Também é interessante ver como a Madison Avenue – o reduto das grandes agências norte-americana – tentava vender os produtos que até então eram novos no mercado, como por exemplo, o dilema de fazer vender um creme anti-acne para adolescentes, porque afinal, quem se preocupava com eles? As campanhas tabagistas também são bem abordadas nesta série, o cigarro era livre de qualquer proibição e as pesquisas sobre o câncer nem sequer eram cogitadas. Em um tempo onde as campanhas tinham o objetivo de criar sensações, um dos momentos mais incríveis da série é quando Draper cria o nome “Carrousel” para o disco rotatório dos aparelhos de slide.

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No mundo convencional e machista desta época, os executivos não se importavam se as campanhas eram escritas por homens ou mulheres, porém foram as mulheres as mais valorizadas por sua capacidade de interação mútua e por isso você verá porque a personagem Peggy Olson é tão importante nesta trama.

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No mundo de Mad Men, lugar de mulher é em casa (bem vestida) e cuidando dos filhos. Pensar em carreira profissional? Se a mulher tinha que trabalhar, ela iria viver e morrer como secretária que digita em uma máquina de escrever, fazendo as chamadas telefônicas do seu chefe, servindo seu cafezinho e misturando suas bebidas. Mulher divorciada (desquitada, lembra?) era tabu total. As mulheres eram discriminadas no ambiente de trabalho e não havia leis para o assédio sexual. O autor afirmou sem rodeios, que o ponto alto da série é mostrar como as mulheres eram maltratadas no passado, e a beleza está neste show porque sabemos como tudo isso vai mudar.

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As mulheres na série são de fato exaltadas e a mais glamourosa é Betty Draper (January Jones), seguida da ambiciosa copywriter Peggy Olson (Elisabeth Moss), e a sexy gerente de escritório Joan Holloway (Christina Hendricks). O período vintage e fashion feminino da série é fascinante: o figurino é impecável nas roupas e acessórios que vestem os corpos cheios de curvas, e o estilo dessas mulheres cujas atitudes estão à frente de seu tempo é encantador, sujeitas a uma submissa e opressora força externa, que opunha a uma poderosa e interna força transgressora a ponto de explodir a qualquer momento.

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Eu diria que vários são os pontos altos desta série, e um deles é o discurso silencioso que se faz pelas frases incompletas ou pelo segredo nos olhares. A direção de arte e de fotografia também são maravilhosas e não posso poupar elogios. Repare na foto abaixo, Betty Draper numa consulta ao ginecologista: as cores, a luz, os móveis e sua posição sobre o móvel enchem a cena de melancolia.

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A cenografia é de tirar o fôlego para os apreciadores de objetos vintage! Note na foto abaixo o telefone amarelo, a televisão, a geladeira, cadeira, poltrona… enfim, tudo muito bem construído.

casa de peggy olson

E é claro, em todas as cenas elas estão lá, de todas as cores e de todas as marcas: as máquinas de escrever!

peggy olson

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É intrigante observar este mundo dos anos 60 – antes do direitos adquiridos pela mulher, dos Direitos Civis ou da meia-calça – através dos nossos olhos do século 21. Historicamente, a série retrata a Pop Art, geração Beat, a era Nixon, a eleição e morte de John Kennedy, a crise dos mísseis cubanos e até agora, a preparação para uma possível Guerra do Vietnã. Este show é imperdível.

Para conhecer mais:
Don and Betty’s Paradise Lost, Vanity Fair
5 razões para você assistir Mad Men
Muitos e muitos anúncios vintage coletados por Jon Williamson

Julia Child

Aos poucos tentarei comentar sobre os muitos filmes e séries que assisti nestes últimos meses. E para começar, um filme relacionado com culinária, tema que eu adoro e se o tempo me permitisse, veria milhares de vezes Simplesmente Martha, Babette e etc.

julie&ljuliaOntem assisti Julie & Julia e confesso que quase desisti de vê-lo logo no seu início. Com lindas paisagens parisienses, o filme traz uma das minhas atrizes preferidas, Meryl Streep no papel da autora de livros de culinária e apresentadora de televisão americana, a chef Julia Child. Meryl é magnífica em todos os seus papéis, mas neste filme ela trouxe o sotaque de Julia, em um leve exagero no agudo tom da voz, causando um efeito irritante. Foi difícil aguentar o filme inteiro, mas no final valeu à pena para provocar o paladar.

O filme é fraco e com cenas clichês retratando a ‘crise dos 30′ da blogueira Julie Powell, que ficou famosa pelo livro homônimo e por trazer novamente à cena o estilo de cozinhar de Julia Child, que obteve sua fama nos anos 70 e 80 ao apresentar um programa de tv sobre culinária. O roteiro é baseado no livro de Julie, que narra sua aventura gastronômica na realização de todas as receitas do best seller da chef americana (Mastering the Art of French Cooking) em 365 dias, relatando tudo em seu blog pessoal; e também no livro da própria Julia Child (Minha vida na França), lançado postumamente e que ocupou seu pensamento até os últimos minutos antes de sua morte, em 2004. Bem mais interessante assistir sobre sua deliciosa vida em Paris – entre 1948 e 1954 –, e a busca de uma americana de classe média, desde o seu primeiro contato com o maravilhoso mundo das manteigas até o período em que cursou o famoso Instituto Le Cordon Bleu, e provou num universo machista que uma mulher poderia aprender e também ensinar a culinária francesa.

O melhor do filme é o que não está no filme, começando pelo livro de Julia “Minha vida na França” (que já está na lista de “livros a ler”) e pelos vários vídeos postados no youtube, dentre eles um em que a própria ensina como fazer um omelete francês. Julia era líder em audiência desde sua estreia na televisão em 1963, com o programa “The French Chef”, e passou a fazer parte da cultura familiar e foi objeto de várias referências: em 1966, ela estampou a capa da revista Time com o título “Our Lady of the Ladle”.

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Sua cozinha também não era qualquer cozinha! Projetada por seu marido, ela foi totalmente transformada com iluminação apropriada para tv, com três câmeras posicionadas para capturar todos os ângulos possíveis, e um enorme centro com um fogão a gás de um lado e um fogão elétrico do outro, mas com o cuidado de deixar os aparelhos pessoais de Julia, como o seu “forno de parede com a porta rangendo”, o que acrescentou uma pitada pessoal e aconchegante ao espaço. Este foi o cenário de quase todos os seus programas na década de 90 e hoje ele é exibido no Museu Nacional de História Americana em Washington, DC.

O blog original de Julie Powell continua no ar e também é um extra melhor que o filme: “Government drone by day, renegade foodie by night. Too old for theatre, too young for children, and too bitter for anything else, Julie Powell was looking for a challenge. And in the Julie/Julia project she found it. Risking her marriage, her job, and her cats’ well-being, she has signed on for a deranged assignment”. Pelos comentários na net, é melhor ler o blog do que comprar o livro.

Imagino que muitos blogueiros se identificam com este filme, principalmente os que tem seu assunto principal na culinária. E eu como cozinheira amadora e fã de culinária, não me arriscaria a escrever sobre este tema aqui, mas depois de ontem… com muita inspiração fui ao verdureiro hoje cedo e decidida resolvi cozinhar uma lasanha que há tempos não aparecia no meu cardápio! Abaixo as fotos do resultado, em que ainda estou com as mãos cheirando ‘à manjericão’ e com minhas papilas gustativas salivando, tanto pelas saborosas comidas do filme, como pela minha lasanha que estava deliciosa. Ah! E o detalhe é que eu não acerto os meus omeletes, mas quem sabe agora, depois de assistir o vídeo da Julia no youtube, eu me arrisco a tentar novamente…

lasanha de beringela

lasanha de beringela

lasanha de beringela

molho com azeite de oliva

lasanha de beringela

Bon Appétit!

Life on Mars e Ashes to Ashes

ashes to ashes

Para quem ainda se sentia órfão depois que Carnivàle chegou ao fim, uma boa opção é a série britânica Life on Mars (2006) e sua sequência Ashes to Ashes (2008).

life-on-marzDepois de envolver-se num acidente de carro em Londres, no ano de 2006, o DCI (Director of Central Intelligence) Sam Tyler (John Simm) acorda na Manchester de 1973. Agora ele é um DI (Detective Inspector) no primeiro dia de trabalho, numa grotesca e confinada delegacia. Seu novo superior é Gene Hunt (Philip Glenister), um homem que age primeiro e pensa depois. Confuso e perturbado, Tyler é forçado a agir contra crimes de 33 anos atrás, utilizando como métodos a força e a corrupção. Para o liberal policial vindo do século 21, Hunt representa tudo o que há de pior na corporação policial. Confrontado com dilemas morais e pessoais, Tyler tem cada vez mais dúvidas sobre a sua atual realidade. Seria mesmo uma viagem no tempo? Ou ele está preso num sonho? Intitulada pela música de David Bowie, “Life on Mars” tem ótima trilha sonora dos anos 70. O drama teve duração de 2 anos, com direção de arte impecável, episódios bem elaborados e final surpreendente.

“Ashes to Ashes” é a continuação de Life on Mars. Em 2008, Alex Drake (Keeley Hawes), uma policial conhecida por estudar o perfil psicológico dos criminosos, leva um tiro e acorda num bordel em 1981, rodeada por homens e mulheres que mais parecem ter vindo da série “Miami Vice”. Confusa, Alex se vê cara a cara com alguns personagens familiares, não apenas de sua própria infância, mas também com os personagens de suas recentes pesquisas: nada menos que Sam Tyler, por quem Alex passou os últimos meses estudando. A policial agora trabalha com o machista e politicamente incorreto Gene Hunt, sempre cercado pelos fiéis escudeiros DS Ray Carling e DC Chris Skelton. Com trilha sonora de Bucks Fizz, The Human League e outros, a série constrói uma nova relação profissional quando o todo-poderoso e machão Gene Hunt se vê obrigado a trabalhar ao lado de uma sexy, inteligente e ambiciosa policial. Com ótima caracterização dos anos 80, a série (produzida pela BBC) deve continuar em 2009.

ashes to ashes

Sistema de Animação, 2008

sistema animacao

Lançado em outubro num evento memorável onde reuniram-se, num só lugar, os grandes nomes da música instrumental brasileira, o filme/documentário Sistema de Animação, de Guilherme Ledoux e Alan Langdon agora brilha pelos festivais brasileiros e mundiais.

Produzido de forma totalmente independente, o documentário tem como alvo principal o músico Lourival José Galiani, vulgo “Toucinho da Batera”, um dos maiores bateristas de Santa Catarina e uma lenda viva do cenário musical brasileiro. Foram 5 anos de filmagem e captados à base do improviso, onde os diretores Alan e Guilherme (amigos de infância e em parceria criativa desde 1997) misturaram-se à trama, interagindo com o personagem quase o tempo todo, em variadas localidades de Florianópolis. A edição é de um ritmo requintado e vibrante assim como a musicalidade de Toucinho.

S.A. pulsa com as histórias folclóricas e hilárias, e as diversas situações inusitadas em que Toucinho se envolve. É um encontro do espectador com o neurônios contagiantes desse artista que revela a sua realidade, a filosofia, o dia-a-dia criativo e rodeado por suas peripécias intelectuais. No meio da trama descobre-se, enfim, qual é o sistema de animação que move o personagem, um “artista improvisador equilibrando-se com humor entre a arte e a sobrevivência, numa complexa condição nem sempre simples (ou possível) de explicar” – revelam os diretores.

Além da boa música, o espectador encontrará participações do meio musical como Nenê Batera, Alegre Corrêa, Gringo Saggiorato, Alessandro “Bebê” Kramer, Cássio Moura, Luiz Meira e Guinha Ramires.

Assista abaixo ao trailer de divulgação do filme:

Palavras riscadas

O curta-metragem Gratte-Papier (Palavras Riscadas), do diretor Guillaume Martinez exemplifica a reflexão de Roger Chartier (em A aventura do livro)  sobre a leitura em espaços públicos e privados:

“A leitura silenciosa, mas feita em um espaço público (biblioteca, metrô, trem, avião), é uma leitura ambígua e mista. Ela é realizada em um espaço coletivo, mas ao mesmo tempo ela é privada, como se o leitor traçasse, em torno de sua relação com o livro, um círculo invisível que o isola. O círculo é contudo, penetrável e pode haver aí intercâmbio sobre aquilo que é lido, porque há proximidade e porque há convívio. Alguma coisa pode nascer de uma relação, de um vínculo entre  indivíduos a partir da leitura, mesmo silenciosa, pelo fato de ser ela praticada em um espaço público”. (pg 143)

Gratte-Papier foi o vencedor do urso de prata no Festival de Berlim em 2006 e não possui legenda. O diálogo silencioso é mais ou menos assim:

– Eu não consigo ver seu rosto, mas o olhar do outro homem pode me dizer.
– O olhar dele não diz o seu (rosto).
– Eu era o centro (da atenção) antes de você chegar.
– Não se preocupe, já estou saindo.
– Não, não se mexa. O stress soa lá fora. Aqui estamos sentados, é melhor.
– Vou embora.
E a garota escreve o nº de seu telefone no livro.

In Bruges

Em 2004, o escritor-diretor inglês Martin McDonagh lançou seu primeiro curta-metragem e já levou um Oscar para casa. Em 2008, seu primeiro longa In Bruges foi aguardado com ansiedade pelos críticos e agradou a muitos pela sua audaciosa combinação de ultraviolência dentro de um gracioso cenário do Velho Mundo.

In Bruges estréia com um excelente elenco, dentre eles o conhecido Colin Ferrell, no papel de um chorão e arrependido matador irlandês; o quase irreconhecível Ralph Fiennes, que interpreta o cômico chefão, e o ótimo Brendan Gleeson (que já fizera parceria no curta de McDonagh e atuou em Harry Potter e a Ordem da Fênix, 2007).

A “fairy tale fucking town” é como o enfático Harry (Fiennes) descreve Bruges. E na verdade, Bruges é uma cidade cheia de “beautiful fucking fairy-tale stuff”, acrescenta. A idéia de rodar uma comédia sangrenta dentro de uma das mais bem preservadas vilas medievais da Europa, cheia de magia e esplendor, evoca um ponto de equilíbrio entre luz e escuridão. Para McDonagh tudo coexiste: “de fato existe algo mágico sobre a cidade, mas em Bruges o mundo não é nem um conto de fadas, nem puramente maldade”.

Bruges está situada a noroeste de Flandres (Bélgica), perto do Mar do Norte. Era uma cidade cheia de contradições nos tempos dos banquetes medievais, a qual foi inspiração para as visões infernais de Hieronymus Bosch. Seu ápice ocorreu nos séculos 14 e 15, onde desenvolveu o mais sofisticado mercado financeiro dos Países Baixos. Conhecida como a “Veneza do Norte”, a noção moderna de Bruges como um conto de fadas surgiu no século 19, quando escritores viajantes encontravam nela um lugar conveniente para elaborarem suas fantasias românticas num lugar singular dentro da Europa. Mas como todas as grandes cidades cosmopolitas, a sua glória desbotou. Os tesouros arquitetônicos da cidade tornaram-se as jóias do seu passado exótico e hoje Bruges concentra sua economia no turismo e em sua forte tradição na fabricação artesanal de mais de trezentos tipos diferentes de cervejas.

In Bruges é uma ótima forma de conhecer esta cidade sem sair do sofá. O filme é rodado em sua maioria nas ruas, e os dois matadores passeiam por entre os monumentos, museus e canais, somados a diálogos filosóficos sobre o tempo e abastecidos pela excelente cerveja local.