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De Virginia Woolf para Paul Cézanne

Paul Cézanne - nature morte aux pommes, 1890

18 de abril, 1918

… viemos para Londres com um vento agreste e com chuva, de lá fomos a Gordon Square; onde se apresentou primeiro o novo Delacroix, e depois o Cézanne (Pommes). Há seis maçãs no quadro de Cézanne. O que é que seis maçãs podem NÃO ser?, comecei eu a pensar cá para comigo. Há a relação entre elas, e a cor, e a solidez. Para o Roger [Fry] e a Nessa [Vanessa Bell], para além disso havia uma questão muito mais intrincada. Era uma questão de se saber se era tinta pura ou misturada; se era pura, qual a cor: esmeralda ou verde; e depois as camadas de tinta; e o tempo que lhe levou, e como o alterou, e porquê, e quando o pintou… Levámo-lo para a sala contígua e, santo Deus!, como ofuscou os quadros que lá estavam, como se se pusesse uma jóia verdadeira junto de jóias falsas; as telas dos outros pareciam ter sido esborratadas com uma fina camada de uma tinta de muito má qualidade. As maçãs ficaram realmente muito mais vermelhas e mais redondas e mais verdes. Desconfio de que há uma porção com propriedades muito misteriosas naquele quadro. (…)

Virginia Woolf, – Diário, 1915-1926, vol. I, ed. Bertrand, Portugal. pg, 89.


No dia 19 de janeiro de 1839, em Aix-en-Provence (França), nascia Paul Cézanne. Mestre inconfundível e criador de novos caminhos para a arte do século XX, foi demolido em vida pela crítica, que o qualificou de “irremediavelmente fracassado”. Cézanne trouxe uma nova concepção de percepção da realidade. É hoje um dos pintores mais caros do mundo, “Cézanne é o pai de todos nós”, disse Pablo Picasso a respeito do artista.  A palavra ‘todos’ incluía os pintores do fauvismo, do cubismo e do abstracionismo.

Le Chat Noir

O Chat Noir ilustrado na foto acima (à esquerda) é muito popular e provavelmente você já o viu impresso em algum lugar. Seu criador, porém, não é tão conhecido assim.

Théophile Alexandre Steinlen (1859-1923), pintor, ilustrador e impressor nasceu na Suíça. Em 1881, aos 19 anos, mudou-se para Paris e dedicou-se ao desenho profissionalmente. Frequentou os cafés de Montmartre, principalmente o famoso Le Chat Noir (fundado pelo seu colega suíço Rodolphe Salis), onde travou conhecimento com artistas de vanguarda, como Toulouse-Lautrec, Adolphe Willette, entre outros. Tornou-se um dos colaboradores regulares da revista Le Chat Noir, e logo começou a desenhar para a maioria das revistas de humor, às vezes utilizando o pseudônimo de Jean Caillou. Trabalhou também no Gil Blas illustre (fez mais de quatrocentos desenhos), Mirliton, Chambard, Rire e L’Assiette au beurre. Em 1911, tornou-se um dos 13 jornalistas fundadores da Les Humouristes, cuja duração foi curta, infelizmente.

Steinlen adorava gatos. Seu afeto por animais foi observado já em sua escolaridade, quando desenhava gatos nas margens de seus cadernos. No início de sua carreira, vendia desenhos de gatos em troca de comida. Nos anos posteriores, gatos aparecem na maioria de seus desenhos, ilustrações para revistas, cartazes ou litografias, quase como uma espécie de assinatura. O artista desenhou, pintou e esculpiu-os. Tentou traduzir toda a imaginável sutileza de seus movimentos, poses, charme, caráter, assim como suas propriedades simbólicas. O período em que esculpiu os felinos é pouco conhecido, porém, o Museu de Berlim conservou uma de suas peças em bronze, chamada “Um Angorá”.

Em Paris, sua casa na Rue Caulaincourt foi um local de encontro para todos os gatos do quartier. Vários dos estudos dos gatos de Steinlen foram compilados em uma publicação intitulada “Des chats”. A filha Colette, escritora e tal como o pai, grande apreciadora de gatos, serviu-lhe de modelo para o cartaz “Le Lait de la Vingeanne” (acima, à direita).

Instant Origami

Instant Origami é uma interpretação contemporânea da tradicional técnica japonesa de dobradura em papel. Tem foco na velocidade e imaginação ao invés de sua brilhante técnica de execução. O objetivo é criar a representação de um objeto através da dobradura de um único papel, sem a utilização de cola.

A realização de extensas pesquisas na área, bem como a obtenção do conhecimento através de uma formação prática com monges budistas, tanto na China como no Japão, tem-nos ajudado a desenvolver e chegar a novos e melhores métodos.

Se você é um árduo trabalhador executivo, um constante viajante ou uma mãe ocupada, vai encontrar alegria usando o Instant Origami. Ele não serve apenas como uma maravilhosa ferramenta para a mediação acelerada, mas também vem a calhar se você precisar de um presente instantâneo ou simplesmente para impressionar”.

Traduzi este texto do site, super clean e muito divertido!

Colhido em: Highmind.

Um vôo em comum

Na semana que passou, participei de um encontro teórico-prático sobre história da pintura contemporânea com Paulo Pasta, no Museu Victor Meirelles. Paulo chegou uma hora e meia atrasado por causa dos aeroportos brasileiros. Ele disse que a companhia aérea pretendia aterrissar o avião em Porto Alegre pra depois enviar os passageiros até Floripa… de ônibus, pode?!! Fora este atraso, o encontro foi ótimo, apesar de alguns participantes confundirem o evento com terapia em grupo. Refletir e ouvir sobre pintura com a mediação de um dos melhores pintores contemporâneos do país foi bom demais. Lembrou-me a época de minha graduação na Belas Artes em Curitiba e me impulsionou a voltar a pintar.

No mesmo dia em que Paulo se atrasou, corri (na chuva) para outro compromisso, o lançamento do livro Caio Fernando Abreu, inventário de um escritor irremediável (editora Seoman) da jornalista e escritora Jeanne Callegari.Tal foi a minha surpresa quando Regininha, que organizou o evento, me contou que Jeanne quase não compareceu ao evento porque o avião atrasou e pretendia aterrissar em Porto Alegre pra depois enviar os passageiros até Floripa… de ônibus! Achei engraçado meus dois compromissos estarem unidos pela mesma história. Enfim, o lançamento foi um sucesso, assim como está sendo a recepção do livro pelo público. Minha noite terminou numa pizzaria, ao lado da autora, de amigos e novos amigos!

Para saber mais sobre o livro Caio F.A…, leia aqui. Para saber um pouco mais sobre Paulo Pasta, leia este artigo em que o artista analisa dois livros sobre Francis Bacon.

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Para quem estiver em Florianópolis, até o dia 16 de outubro acontece no Museu Victor Meirelles, no centro da cidade, a exposição “Sonetos” de Luiz Henrique Schwanke, com trabalhos diferentes daquilo que estamos acostumados a ver do artista. São pinturas e desenhos sobre papel, todos inéditos e da década de 80.

Super-heróis modificados

Que tal um Batman decadente e gorducho comendo rosquinhas? E um Super-Homem franzino e rindo à toa? Influenciado pela infância passada nos anos 80, o artista australiano Anthony Lister trabalha com assuntos da sociedade e da cultura popular, refletindo o seu lado menos glamouroso.

Lister, que hoje mora em Nova York, vê a televisão como um meio de meditação contemporânea e retira dela (e também dos comic books) a maioria de seus temas. O artista convida o espectador para uma reflexão sobre os modelos transmitidos na infância entrelaçando-se com a atual e nebulosa realidade social.

Para Lister, o brilho puro da realidade vivida na infância cedeu espaço a uma perspectiva distorcida da realidade das guerras, das relações humanas e do colapso social, “a simplicidade da infância está perdida em nossa memória obscurecida e desbotada dentro de um terno azul”, assinala o artista.

Playful Spaces

Brincar enquanto se espera o ônibus já é possível! O projeto “Playful Spaces”, do artista londrino Bruno Taylor, investiga as diferentes formas de trazer o lúdico de volta ao espaço público, utilizando os elementos arquitetônicos já existentes na cidade. O projeto questiona se os espaços públicos de uma cidade é suficiente para as pessoas brincarem, pois de acordo com pesquisa, 71% dos adultos brincavam na rua quando crianças, enquanto que hoje apenas 21% das crianças fazem o mesmo.

Colhido no designboom.com

Radioactive Cats

Esta é uma das obras mais conhecidas da artista norte-americana Sandy Skoglund. Fazem parte de seu processo de criação objetos cuidadosamente selecionados e coloridos, em um processo que leva meses para a sua conclusão. Além de objetos esculpidos, a artista completa suas obras (fotos, instalações e vídeos) com a presença de atores.

Skoglund, que é atualmente docente em fotografia e arte instalação na Rutgers University, em Nova Jersey (EUA), afirma que enquanto criava Radioactive Cats, começou a perceber o mundo como se ela fosse um gato.

Alguns críticos escreveram que o número excessivo de gatos em RC indica a perda de controle humano, e que se lido no contexto de uma catástrofe nuclear, o excesso de gatos sugere que a natureza como conhecemos terá sido perdida. Pelo contexto social, a figura dos idosos e o número excessivo de gatos remetem à generosidade dos idosos ao recolher os felinos. Outros afirmam que a autora criou  gatos luminosos (jogando com a idéia de que os gatos pode ver à noite), dispostos em um apartamento sombrio e degradado, criando um mundo para além do nosso controle. E outros exageram ao dizer que a obra retrata animais perseguindo o casal idoso na cozinha, onde no brilho que emana o ato de abrir a porta da geladeira, assiste-se a um pesadelo de velhice e de decrepitude.

Na minha opinião, gatos e humanos estão serenos e em plena harmonia. É uma obra fascinante.

Radioactive Cats (1980): fotografia colorida (cibachrome), 65 x 83 cm.
Acervo: fraclorraine.org

Doces Sonhos

Kirsten Lepore é animadora, ilustradora freelancer e mora em Nova Jérsei, EUA. Recém graduada no curso de Animação Experimental pela Maryland Institute College of Art, Kirsten já tem um belo trabalho em seu breve currículo. As fotos que ilustram este post são da animação Sweet Dreams (2007), que tem 10 minutos de duração e conta a história de um docinho sonhador que num belo dia resolve construir um barco de açucar e se aventurar pelo mar. A animação em stop-motion levou um ano para ser concluída. O resultado é lindo e outras animações também compõem o site da autora, como “Craig and Walter” (2005) realizada em 3D, com apenas 1 minuto, e “Guess Who” (2006) também em stop-motion e com efeito especial para os nostálgicos apreciadores dos brinquedos da geração 80.

Se tiver tempo, a dica é acessar pangeaday.org para assistir a animação “Sweet Dreams” completa, com mais docinhos e uma floresta de legumes! E aproveitando a carona, outra dica é assistir (no mesmo site) ao curta-metragem L’homme sans tête, (2001), do argentino Juan Diego Solanas.

Little People in the City

Reafirmo minha crença (em post anterior) de que a arte deve ir ao encontro do público e estar no cotidiano e nas ruas movimentadas das cidades. Dentro deste cenário e inspirado por Banksy, outro misterioso artista surgiu em Londres e é conhecido como Slinkachu ou Slinky, apelido dado por seus fãs. O artista interfere no cotidiano dos pedestres e recria a vida cotidiana sob a forma de pequenas esculturas cuidadosamente espalhadas pela cidade.

No blog little-people há várias fotos de intervenções urbanas com estas sutis e delicadas obras de arte, que estarão no livro Little People in the City que será logo publicado e já pode ser encomendado pela Amazon. Vale à pena conferir também no site do artista os outros links de street art que ele indica.