Category Archives: Máquinas de Escrever

Mad Men

mad menSou viciada em séries americanas, britânicas, dinamarquesas ou whatever… quando gosto, ninguém me tira do sofá! E hoje este post é dedicado à Mad Men, uma das melhores séries que já assisti.

Há dois anos quando li sobre ela no blog Uppercase Journal, fiquei curiosa pela fotografia que ilustrava o post, onde havia uma enorme sala estilo anos 60, e minha curiosidade aguçou quando percebi que elas estavam lá… as máquinas de escrever. Mas foi somente no verão passado que tomei uma overdose de Mad Men e vi três temporadas inteiras em duas semanas. Hoje a série está em sua 4ª temporada e vem conquistando todos os prêmios na categoria “melhor série drama”, e não é à toa: Mad Men é escrita e produzida por Matthew Weiner, também escritor e produtor executivo do premiadíssimo drama Os Sopranos.

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Para quem gosta da arte que existe dentro da publicidade, esta série tem um sabor especial. Ambientada na década de sessenta, o drama gira em torno dos conflitos de Don Draper (Jon Hamm), considerado o executivo mais criativo dos negócios publicitários de Nova York e de seus colegas da agência Sterling Cooper Draper and Pryce. A maior parte das personagens está dentro da agência de publicidade, num ambiente extremamente competitivo onde acompanhamos os conflitos entre clientes e executivos, que jogam e manipulam com seus egocentrismos. O conflito se dá também entre egos do departamento de arte e atendimento e neste contexto observamos o processo da criação de campanhas sem o uso do computador: slogans criados enquanto conversam, desenhos rascunhados e layouts finalizados manualmente, ou seja, a falta de tecnologia é “o” charme da série, sem contar o tilintar dos telefones com fio e os toc-tocs das máquinas de escrever como música de fundo.

Também é interessante ver como a Madison Avenue – o reduto das grandes agências norte-americana – tentava vender os produtos que até então eram novos no mercado, como por exemplo, o dilema de fazer vender um creme anti-acne para adolescentes, porque afinal, quem se preocupava com eles? As campanhas tabagistas também são bem abordadas nesta série, o cigarro era livre de qualquer proibição e as pesquisas sobre o câncer nem sequer eram cogitadas. Em um tempo onde as campanhas tinham o objetivo de criar sensações, um dos momentos mais incríveis da série é quando Draper cria o nome “Carrousel” para o disco rotatório dos aparelhos de slide.

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No mundo convencional e machista desta época, os executivos não se importavam se as campanhas eram escritas por homens ou mulheres, porém foram as mulheres as mais valorizadas por sua capacidade de interação mútua e por isso você verá porque a personagem Peggy Olson é tão importante nesta trama.

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No mundo de Mad Men, lugar de mulher é em casa (bem vestida) e cuidando dos filhos. Pensar em carreira profissional? Se a mulher tinha que trabalhar, ela iria viver e morrer como secretária que digita em uma máquina de escrever, fazendo as chamadas telefônicas do seu chefe, servindo seu cafezinho e misturando suas bebidas. Mulher divorciada (desquitada, lembra?) era tabu total. As mulheres eram discriminadas no ambiente de trabalho e não havia leis para o assédio sexual. O autor afirmou sem rodeios, que o ponto alto da série é mostrar como as mulheres eram maltratadas no passado, e a beleza está neste show porque sabemos como tudo isso vai mudar.

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As mulheres na série são de fato exaltadas e a mais glamourosa é Betty Draper (January Jones), seguida da ambiciosa copywriter Peggy Olson (Elisabeth Moss), e a sexy gerente de escritório Joan Holloway (Christina Hendricks). O período vintage e fashion feminino da série é fascinante: o figurino é impecável nas roupas e acessórios que vestem os corpos cheios de curvas, e o estilo dessas mulheres cujas atitudes estão à frente de seu tempo é encantador, sujeitas a uma submissa e opressora força externa, que opunha a uma poderosa e interna força transgressora a ponto de explodir a qualquer momento.

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Eu diria que vários são os pontos altos desta série, e um deles é o discurso silencioso que se faz pelas frases incompletas ou pelo segredo nos olhares. A direção de arte e de fotografia também são maravilhosas e não posso poupar elogios. Repare na foto abaixo, Betty Draper numa consulta ao ginecologista: as cores, a luz, os móveis e sua posição sobre o móvel enchem a cena de melancolia.

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A cenografia é de tirar o fôlego para os apreciadores de objetos vintage! Note na foto abaixo o telefone amarelo, a televisão, a geladeira, cadeira, poltrona… enfim, tudo muito bem construído.

casa de peggy olson

E é claro, em todas as cenas elas estão lá, de todas as cores e de todas as marcas: as máquinas de escrever!

peggy olson

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É intrigante observar este mundo dos anos 60 – antes do direitos adquiridos pela mulher, dos Direitos Civis ou da meia-calça – através dos nossos olhos do século 21. Historicamente, a série retrata a Pop Art, geração Beat, a era Nixon, a eleição e morte de John Kennedy, a crise dos mísseis cubanos e até agora, a preparação para uma possível Guerra do Vietnã. Este show é imperdível.

Para conhecer mais:
Don and Betty’s Paradise Lost, Vanity Fair
5 razões para você assistir Mad Men
Muitos e muitos anúncios vintage coletados por Jon Williamson

Eu tenho uma máquina de escrever IV

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Olá,
Salve, salve 2010!!

O primeiro post do ano é dedicado à uma máquina. Devo muito à esta robusta Olympia, pois se não fosse por ela, não teríamos como escrever os cartões de natal da Corrupiola. De todas as máquinas que possuímos, ela foi a única a aceitar um papel 250gr em seu rolo, e como as coincidências acontecem… esta semana li um livro de Clarice Lispector e também encontrei este lindo texto onde a escritora relata o relacionamento com sua companheira de criação:

“Uso uma máquina de escrever portátil Olympia que é leve bastante para o meu estranho hábito: o de escrever com a máquina no colo. Corre bem, corre suave. Ela me transmite, sem eu ter que me enredar no emaranhado de minha letra. Por assim dizer provoca meus sentimentos e pensamentos. E ajuda-me como uma pessoa. E não me sinto mecanizada por usar máquina. Inclusive parece (?) captar sutilezas. Além de que, através dela, sai logo impresso o que escrevo, o que me torna mais objetiva. O ruído baixo de seu teclado acompanha discretamente a solidão de quem escreve. Eu gostaria de dar um presente à minha máquina. Mas o que se pode dar a uma coisa que modestamente se mantém como coisa, sem a pretensão de se tornar humana? Essa tendência atual de elogiar as pessoas dizendo que são muito humanas está-me cansando. Em geral esse humano está querendo dizer bonzinho, afável, senão meloso. E é isso tudo o que a máquina não tem. Sequer a vontade de se tornar um robô sinto nela. Mantém-se na sua função, e satisfeita. O que me dá também satisfação.”   (Clarice Lispector)

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Colhido em: Dois Espressos